Notes

Sobre apelativos redutivos

Me lembrei do trecho de um livro que tenho anotado. Umberto Eco, no começo do excelente Em que creem os que não creem, se dirige ao cardeal Carlo Maria Martini dizendo:

(…) não me considere desrespeitoso se me dirijo ao senhor chamando-o por seu nome próprio, sem referir-me às vestes que enverga. (…) sempre me impressionou o modo como os franceses, quando entrevistam um escritor, um artista, uma personalidade política, evitam usar apelativos redutivos, como professor, eminência, ou ministro. Há pessoas cujo capital intelectual é dado pelo nome com que assinam as próprias idéias. Assim, os franceses se dirigem a qualquer pessoa cujo maior título é o próprio nome, com “diga-me, Jacques Maritain”, diga-me, Claude Lévi-Straus”. É o reconhecimento de uma autoridade que se manteria mesmo se o sujeito não tivesse se tornado embaixador ou acadêmico da França. Se eu tivesse que me dirigir a Santo Agostinho (e também por essa vez, não me julgue excessivamente irreverente), não o chamaria de “Senhor Bispo de Hipona” (pois muitos outros depois dele também foram bispos daquela cidade), mas de “Agostinho de Tagasta”.